Nesta sexta-feira, 8 de agosto de 2025, o samba amanheceu mais silencioso, de luto e profundamente entristecido. Isso porque, aos 66 anos, Arlindo Domingos da Cruz Filho, o eterno Arlindo Cruz, faleceu no Rio de Janeiro. A notícia, confirmada por sua esposa Babi Cruz, espalhou-se rapidamente e, assim, comoveu fãs, artistas e admiradores de todo o país.
A Luta Contra a Doença
A trajetória recente de Arlindo foi marcada, sobretudo, por um período difícil. Em março de 2017, ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico que deixou sequelas na fala e na mobilidade. Dessa forma, foi obrigado a afastar-se dos palcos, embora tenha permanecido cercado de carinho da família e de fãs.
Nos últimos meses, entretanto, seu estado de saúde se agravou consideravelmente. Internado desde março de 2025 devido a uma pneumonia persistente e a uma infecção bacteriana resistente, passou a responder cada vez menos a estímulos. Por isso, sua partida, embora esperada por muitos, provocou um vazio profundo no universo do samba.
Raízes e Formação Musical
Para compreender plenamente sua importância, é necessário voltar ao início. Nascido em 14 de setembro de 1958, no bairro de Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Arlindo teve contato com a música desde cedo. Aos sete anos, ganhou seu primeiro cavaquinho e, a partir de então, mergulhou no universo do samba.
Ainda adolescente, passou a frequentar o histórico Cacique de Ramos, ponto de encontro de nomes como Candeia, Jorge Aragão, Almir Guineto e Beth Carvalho. Nesse ambiente, portanto, formou sua identidade musical, aprendendo a unir tradição e inovação.
Ascensão com o Fundo de Quintal
Em 1981, Arlindo deu um passo decisivo ao integrar o grupo Fundo de Quintal. Foi nesse período que consolidou-se como músico e compositor, ajudando a modernizar o samba ao popularizar o uso do banjo no pagode.
Durante 12 anos, gravou obras históricas, conquistou fãs de diferentes gerações e tornou-se, assim, um dos compositores mais respeitados do país.
Carreira Solo e Sucessos Eternos
Após deixar o grupo, em 1993, Arlindo iniciou uma carreira solo marcada por parcerias memoráveis, especialmente com Sombrinha. Dessa forma, lançou álbuns e projetos que ampliaram seu alcance.
Seu DVD MTV ao Vivo: Arlindo Cruz (2009) fez enorme sucesso e reforçou sua popularidade. Entre seus clássicos, destacam-se “O Show Tem Que Continuar”, “Meu Lugar”, “O Bem” e “Bagaço da Laranja”. Essas músicas, inclusive, ganharam interpretações de artistas como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Alcione e Maria Rita.
Samba e Carnaval
Além da carreira nos palcos, Arlindo brilhou intensamente no Carnaval carioca. Escreveu sambas-enredo para escolas como Império Serrano, Vila Isabel, Grande Rio e Leão de Nova Iguaçu, contribuindo para a conquista de pelo menos 19 títulos.
Assim, tornou-se referência na construção de enredos que unem história, emoção e a energia das avenidas.
Reconhecimento e Prêmios
Como consequência de seu talento, Arlindo recebeu inúmeras homenagens. Foi indicado ao Grammy Latino, venceu o Prêmio da Música Brasileira e conquistou o Estandarte de Ouro. Esses prêmios, portanto, reforçaram seu papel como guardião da cultura do samba.
Homenagens em Vida
Mesmo afastado dos palcos, Arlindo continuou sendo celebrado por escolas de samba, artistas e fãs. Em 2023, por exemplo, o Império Serrano apresentou o enredo Lugares de Arlindo, emocionando público e crítica. Paralelamente, sua família manteve viva sua presença por meio das redes sociais, compartilhando momentos de resiliência e afeto.
Legado e Despedida
Arlindo deixa a esposa Babi Cruz, companheira por mais de duas décadas, e os filhos Arlindinho — que segue os passos do pai na música — e Flora. Mais do que isso, deixa um patrimônio artístico capaz de influenciar músicos e compositores por muitas gerações.
Um Canto que Não se Cala
Sua partida encerra a presença física, contudo, não silencia sua voz. As melodias de Arlindo seguem vivas nas rodas, nos ensaios e nos palcos do Brasil. Afinal, como ele mesmo ensinou, “o show tem que continuar”. E enquanto houver um cavaquinho tocando versos de amor e resistência, o nome de Arlindo Cruz seguirá eterno no samba.